A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou o fim da classificação tradicional do Qualis Periódicos, substituindo as categorias A1 a C por três grandes grupos — Consolidados, Em processo de consolidação e Não consolidados — a partir do quadriênio 2025-2028, com foco em qualidade em vez de volume de publicações.
A mudança ocorre em paralelo ao crescimento de periódicos predatórios no Brasil, que simulam revisão por pares mediante pagamento. Ferramentas como Think. Check. Submit., DOAJ e Preda Qualis ajudam autores e editores a verificar a idoneidade de revistas antes da submissão, responsabilidade que se torna ainda mais central com o novo modelo de avaliação.
Em janeiro de 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) confirmou uma mudança que pesquisadores brasileiros discutiam havia anos: o fim da tradicional classificação A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3 e C do Qualis Periódicos. A partir do quadriênio 2025-2028, os programas de pós-graduação stricto sensu passarão a ser avaliados por um novo modelo, que classifica periódicos em três grandes categorias — Consolidados, Em processo de consolidação e Não consolidados — subdivididas conforme o idioma predominante das publicações.
A reforma não é apenas burocrática. Ela chega em um momento em que o Brasil enfrenta um problema crescente e pouco debatido fora dos círculos acadêmicos: a proliferação de periódicos, editoras e eventos predatórios, que exploram comercialmente a pressão por publicação e colocam em risco a credibilidade da ciência nacional.
Para autores, editores de revistas científicas e programas de pós-graduação, entender as duas frentes — a reformulação da avaliação da Capes e os riscos das publicações predatórias — deixou de ser opcional. É parte da estratégia de qualquer pesquisador ou editora que queira publicar com segurança e visibilidade real.
O que muda com o fim do Qualis Periódicos
Segundo o documento de área divulgado pela Capes, para um periódico alcançar a classificação máxima de “Consolidado” com publicações majoritariamente em português, ele precisa cumprir critérios objetivos: ter ao menos dez anos de existência com publicação contínua, apresentar índice h5 (Google Scholar) igual ou superior ao terceiro quartil da sua área e estar indexado em bases de reconhecida visibilidade, como SciELO, Scopus, Web of Science ou bases temáticas nacionais consolidadas.
A avaliação também muda de foco: em vez de pontuar a quantidade de artigos publicados pelos docentes, as comissões passam a considerar um número limitado de produtos por quadriênio, priorizando a qualidade e o impacto social e acadêmico do trabalho. A intenção declarada é frear o chamado “produtivismo” — a lógica de publicar em volume para acumular pontuação, independentemente da relevância do periódico escolhido.
É justamente essa lógica de produtivismo, alimentada por décadas de avaliação centrada em quantidade, que abriu espaço para o crescimento das revistas predatórias no Brasil.
Por que as revistas predatórias preocupam a ciência brasileira
Um periódico é classificado como predatório quando simplifica ou finge realizar a revisão por pares em troca de pagamento, sem compromisso real com a qualidade da pesquisa publicada. Pesquisadores da Escola de Administração da UFRGS, em estudo publicado na revista Scientometrics, analisaram 2,3 milhões de publicações de mais de 100 mil pesquisadores brasileiros entre 2000 e 2015 e identificaram um crescimento exponencial da proporção de periódicos predatórios indexados dentro do próprio sistema Qualis, especialmente entre 2010 e 2015 — com o agravante de que os pesquisadores mais experientes, e não os iniciantes, respondiam pela maior parte dessas publicações.
O fenômeno foi descrito pela primeira vez em 2008 pelo bibliotecário norte-americano Jeffrey Beall, que cunhou o termo para descrever periódicos de acesso aberto dispostos a publicar qualquer artigo mediante pagamento. Desde então, o modelo se sofisticou: hoje existem também editoras, eventos, indexadores e até certificados de “fator de impacto” predatórios, muitos deles imitando com precisão os elementos de credibilidade de periódicos legítimos — DOI, ISSN, conselho editorial e sistemas de submissão.
Como essas publicações se infiltram no sistema de avaliação
Segundo especialistas ouvidos pelo Jornal da Universidade da UFRGS, o problema não é apenas ético, mas estrutural: como o Qualis histórico “licenciava” indiretamente os periódicos ao classificá-los, revistas predatórias que conseguiam entrar na lista passavam a atrair muito mais submissões do que antes de serem classificadas — criando um ciclo que premiava quantidade em vez de mérito.
Sinais para identificar um periódico predatório
Antes de submeter um artigo, alguns sinais de alerta merecem atenção redobrada:
- Convite não solicitado e elogios genéricos ao seu trabalho, pedindo submissão imediata — periódicos sérios raramente convidam autores dessa forma.
- Prazos de publicação incompatíveis com o processo editorial real, como aprovação em poucos dias ou semanas, quando a revisão por pares costuma levar meses.
- Ausência de informação clara sobre taxas de publicação (APC) no primeiro contato, com cobrança revelada apenas perto da publicação.
- Título genérico em inglês (“International Journal of…”, “Global Research…”, “American Journal of…”) sem relação clara com uma sociedade científica ou instituição reconhecida.
- Escopo temático amplo demais, aceitando artigos de praticamente qualquer área do conhecimento.
- Conselho editorial duvidoso, com nomes que não confirmam participação ou currículos incompatíveis com a revista.
- Indexações alegadas, mas não verificáveis em bases como Scopus, Web of Science ou DOAJ.
- Site com erros de português ou inglês, design amador e métricas de impacto não reconhecidas oficialmente.
Ferramentas confiáveis para verificar a idoneidade de uma revista
A boa notícia é que existem recursos gratuitos e consolidados para checar um periódico antes de submeter um artigo:
- Think. Check. Submit., iniciativa internacional (disponível também em português) que oferece um checklist simples para avaliar a credibilidade de uma revista antes da submissão.
- DOAJ (Directory of Open Access Journals), diretório que só admite periódicos de acesso aberto com revisão por pares genuína, políticas editoriais claras e transparência sobre taxas.
- Preda Qualis, iniciativa brasileira independente que mantém uma lista interativa de títulos potencialmente predatórios dentro do próprio sistema Qualis.
- SciELO, Scopus e Web of Science, bases que aplicam critérios rigorosos de seleção e continuidade editorial.
Verificar diretamente nessas bases — em vez de confiar apenas na alegação do próprio periódico — continua sendo, segundo especialistas, a forma mais confiável de diferenciar uma revista séria de uma predatória.
O que isso significa para autores, editores e programas de pós-graduação
Com o fim da classificação tradicional do Qualis Periódicos, a responsabilidade de avaliar a idoneidade de uma revista antes de publicar passa a recair ainda mais sobre autores, orientadores e editores. Programas de pós-graduação também precisarão adaptar seus critérios internos de avaliação de produção intelectual às novas categorias de consolidação definidas pela Capes.
Para editoras e equipes que publicam periódicos próprios, o momento reforça a importância de investir em práticas editoriais transparentes: revisão por pares documentada, política editorial pública, registro DOI para cada artigo e indexação em bases reconhecidas. Esses elementos não apenas protegem a credibilidade da revista diante da nova avaliação da Capes, como facilitam a indexação em diretórios como o DOAJ e o SciELO.
Publicar com segurança começa pelos fundamentos
A transição do Qualis Periódicos para um modelo baseado em consolidação é uma oportunidade para o sistema científico brasileiro corrigir distorções acumuladas por anos de avaliação centrada em volume. Mas a mudança de regras não elimina, por si só, o risco das revistas predatórias — a responsabilidade de checar cada periódico antes de submeter um artigo continua sendo do autor, do orientador e da equipe editorial.
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