O Acesso Aberto Diamante é um modelo editorial em que periódicos científicos disponibilizam conteúdo gratuitamente sem cobrar taxas de autores ou leitores, sustentado por universidades, sociedades científicas e agências de fomento. Grande parte dos periódicos brasileiros já opera nesse formato, frequentemente sem reconhecer ou comunicar esse posicionamento estratégico.
O fim da classificação tradicional do Qualis Periódicos pela CAPES, aprovado em 2024, reforça a importância de elementos como DOI, ISSN e indexação qualificada como critérios de credibilidade. Para periódicos Diamante, profissionalizar processos editoriais e declarar explicitamente o compromisso com esse modelo representa uma oportunidade de fortalecer reputação no cenário científico nacional e internacional.
Nos bastidores da comunicação científica brasileira, um modelo de publicação vem ganhando protagonismo silencioso: o Acesso Aberto Diamante. Diferente do Acesso Aberto Dourado, que cobra taxas de processamento de artigos (APCs) dos autores, o modelo Diamante não cobra nada de ninguém — nem de quem publica, nem de quem lê. E o mais surpreendente é que boa parte dos periódicos científicos brasileiros já opera dentro desse modelo, sem que seus próprios editores tenham essa clareza estratégica.
O Que é o Acesso Aberto Diamante
O Acesso Aberto Diamante (ou Diamond Open Access) descreve periódicos financiados por universidades, sociedades científicas, agências de fomento ou instituições públicas, que disponibilizam o conteúdo gratuitamente para leitura, download, cópia e distribuição, sem cobrar taxas de submissão ou publicação dos autores. É um terceiro caminho entre o acesso fechado por assinatura e o acesso aberto pago por APC — um caminho que, na América Latina, não é exceção: é a regra.
Grande parte dos periódicos acadêmicos brasileiros roda em plataformas como o Open Journal Systems (OJS), mantidas por universidades públicas e sociedades científicas, sem cobrança de nenhuma das partes. Isso significa que, tecnicamente, essas revistas já são Acesso Aberto Diamante — só que, muitas vezes, sem usar esse selo, sem comunicar esse diferencial e sem aproveitar o momento internacional favorável ao modelo.
Por Que o Tema Ganhou Força Agora
O Fim do Qualis Periódicos Tradicional
Em outubro de 2024, o Conselho Técnico-Científico da Educação Superior da CAPES aprovou o fim da classificação tradicional do Qualis Periódicos — o sistema de estratos (A1 a C) que, por décadas, ordenou hierarquicamente as revistas científicas brasileiras. A partir do quadriênio 2025-2028, a avaliação passa a focar no artigo individual, não mais no periódico como um todo, com base em quatro níveis de qualidade (Muito Bom, Bom, Regular e Fraco).
Essa mudança redistribui o jogo. Sem o antigo selo de estrato que garantia prestígio automático a um periódico, outros fatores de credibilidade ganham peso: identificação persistente (DOI e ISSN), indexação em bases reconhecidas, boas práticas editoriais e visibilidade internacional. Para revistas Diamante, que já não cobram taxas, esses elementos passam a ser o principal argumento de autoridade.
A Cúpula Global e o Plano de Ação Diamante
O movimento não é só brasileiro. Desde a primeira Cúpula Global sobre Acesso Aberto Diamante, realizada em Toluca, no México, em outubro de 2023, organizações como UNESCO, cOAlition S, Science Europe, CLACSO e Redalyc vêm estruturando um Plano de Ação Diamante (Diamond Action Plan) para tornar esse modelo mais equitativo, sustentável e multilíngue. A terceira edição da cúpula está prevista para fevereiro de 2026, na Índia, reforçando que o tema segue em pauta crescente na agenda internacional de ciência aberta.
O Brasil Já é Protagonista — Mas Precisa Assumir o Papel
A América Latina é, hoje, uma das regiões do mundo com maior concentração de periódicos em Acesso Aberto Diamante, muito em função de plataformas como SciELO e do uso disseminado do OJS por universidades públicas. O paradoxo é que esse protagonismo raramente é comunicado como tal: editores de revistas universitárias e de sociedades científicas costumam tratar a ausência de cobrança como uma limitação de orçamento, não como um selo de equidade acadêmica que pode ser publicamente reivindicado.
Reconhecer-se como um periódico Diamante — e comunicar isso a autores, avaliadores e agências de fomento — é uma mudança de postura que custa pouco e agrega credibilidade, especialmente em um cenário pós-Qualis no qual cada elemento de reputação passa a contar mais.
Os Desafios de Sustentabilidade e Visibilidade
Nenhum modelo é isento de desafios, e o Diamante enfrenta dois principais: sustentabilidade financeira de longo prazo e visibilidade em bases de indexação internacionais.
Profissionalização Sem Cobrar Taxas
Sem receita de APCs, periódicos Diamante dependem de apoio institucional constante — o que exige profissionalização editorial para justificar esse investimento perante universidades e agências de fomento. Isso inclui revisão por pares estruturada, prazos editoriais confiáveis, diagramação consistente e conformidade com normas técnicas (como as da ABNT), elementos que separam um periódico Diamante robusto de uma publicação amadora que também não cobra taxas.
DOI, ISSN e Indexação como Diferenciais Competitivos
Em um modelo sem estratificação Qualis e sem barreira de pagamento, o DOI (Digital Object Identifier) se torna um dos poucos elementos objetivos de credibilidade que um periódico pode oferecer. Ele garante que cada artigo tenha um identificador permanente, rastreável e citável, funcionando como pré-requisito para indexação em bases como DOAJ, SciELO, Redalyc e Google Scholar. Some-se a isso o ISSN, que formaliza a existência da revista como publicação seriada reconhecida, e o conjunto de exigências básicas de visibilidade para um periódico Diamante que quer competir por atenção e reputação fica claro.
Como Fortalecer um Periódico Diamante na Prática
Para editores de revistas universitárias, sociedades científicas ou programas de pós-graduação que já operam — ou pretendem operar — no modelo Diamante, alguns passos práticos ajudam a consolidar a credibilidade da publicação:
Registrar DOI para todos os artigos publicados, retroativos e futuros, garantindo rastreabilidade e citabilidade permanentes. Formalizar o ISSN da revista, caso ainda não exista, e mantê-lo visível em todas as edições. Padronizar a editoração — capa, diagramação, metadados e ficha técnica — para transmitir profissionalismo mesmo sem orçamento de uma editora comercial. Buscar indexação ativa em diretórios como o DOAJ, que reconhece especificamente publicações sem taxas de submissão ou publicação. E, por fim, comunicar abertamente o compromisso com o Acesso Aberto Diamante nas políticas editoriais da revista, transformando a ausência de cobrança em um argumento de equidade científica, não em uma limitação a ser escondida.
O Que Muda para Autores que Publicam em Periódicos Diamante
Para o autor, publicar em um periódico Diamante costuma significar duas vantagens diretas: nenhum custo de submissão ou publicação e, cada vez mais, boa aceitação em avaliações de pós-graduação, já que o novo modelo da CAPES olha para a qualidade do artigo e não mais para o estrato do periódico. Isso reduz a pressão histórica que levava pesquisadores — especialmente os que sentem mais urgência por publicar — a recorrerem a periódicos predatórios só para conseguir uma indexação rápida.
Ainda assim, vale um alerta: a ausência de cobrança não é, isoladamente, garantia de qualidade. Cabe ao autor verificar se o periódico Diamante que está avaliando tem revisão por pares real, corpo editorial identificável, histórico de edições regulares e DOI ativo em todos os artigos publicados. Esses são os mesmos critérios que separam uma revista Diamante séria de uma publicação improvisada que apenas não cobra taxas — sem necessariamente entregar rigor editorial.
Conclusão
O Acesso Aberto Diamante deixou de ser um conceito de nicho discutido apenas em cúpulas internacionais para se tornar uma realidade cotidiana de centenas de periódicos brasileiros — muitas vezes sem que seus editores tenham essa consciência estratégica. Com o fim do Qualis Periódicos tradicional e a crescente exigência por identificadores persistentes e indexação qualificada, profissionalizar esse tipo de publicação deixou de ser opcional.
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